PRISCILA SILVA

MENINAS


Cabelo solto,
salto alto,
maquiagem,
lá vai o menino dono de seus versos.
Ela senta,
sozinha,
observa,
anota,
ninguém nota que sonha acordada.
Menina de olhos atentos
lá vai o menino, e nem nota o seu afeto.
Ele passa,
correndo,
menino,
travesso,
menina, ajeita essa saia
levanta o olhar,
e sorri como uma estrela.
Os dias passam,
ligeiros,
ensolarados,
intensos,
lá vem a menina de compasso apertado.
Ninguém nota que possui um castelo...
Menina, que queres com esse teu gingado?
"Quero aquele menino, preso dentro de meus versos."

 

PEQUENA REFLEXÃO SOBRE OLHOS CASTANHOS- ESVERDEADOS
Eles aparecem numa tarde ensolarada qualquer, quando você menos espera. Brilham, fixam-se, pequenos, incertos. E quando você cai nesse abismo de profundidade furta-cor, misturam-se os tons, confundem-se as cores, até que não haja mais distinção entre as tintas que os colorem e minhas pequenas mãos que tentam alcançá-los.

 

SEM TÍTULO
Hoje acordei entoando aquela música
As mesmas notas,
Os mesmos tons tão conhecidos
A letra, esta também, nunca muda por inteiro,
Apenas pequenos trechos, personagens de uma trama que nem começou...
Trilha sonora de um filme sem fim,
O som ecoa pela sala vazia,
O quarto vazio,
Quisera eu ter a mente vazia...
Escapa um ruído, ao fundo, quase inaudível
E se junta aos quases da sala, e aos outros tantos de minha vida,
Como agora,
Como dantes
A mesma música, as mesmas notas,
Apenas a letra, veja, ouça:
Percebe? Nunca muda por inteiro...
E eu recolho todas as páginas,
Partituras rabiscadas,
De ontem, de hoje, talvez de amanhã,
Guardo-as todas em minha caixa dourada, cor de luz
E deixo a sala, vazia.

 

ENTREVISTA


- Priscila, você é formada em Literatura não é?
Sim.  Sou formada em Letras, e a ênfase do meu curso foi realmente a literatura.

-Fale um pouco dos livros que você gosta de ler
Leio tudo (risos)! A Faculdade de Letras me abriu um mundo pelo qual me apaixonei! Da literatura brasileira eu parti para a inglesa, depois para a francesa, depois para a alemã, para a russa, e não parei mais. Leio mais romances clássicos, mas estou tentando, aos poucos, me interar do que há de mais novo, acompanhar as novidades de novos autores bons que surgem.
 
-Sei que vc fez cursos na Alemanha, fale um pouco mais sobre isso
Desde que comecei a estudar a língua alemã na faculdade, ir para a Alemanha se tornou um dos meus objetivos de vida. Após me formar, decidi que era a hora: escolhi uma Universidade e me matriculei em um curso de verão específico de literatura alemã. Passei 35 dias na Universidade Livre de Berlim estudando um programa específico de autores berlinenses que me trouxe o desafio de entender o dialeto desta cidade (é bem difícil), e me possibilitou conhecer um pouco mais a fundo a literatura moderna de um país que tanto admiro culturalmente. A Alemanha é fascinante. Eu sempre li, como germanista, livros, reportagens, assisti documentários, filmes, sobre a segunda guerra mundial, mas creio que estar em Berlim, passar pelos lugares que foram destruídos e reconstruídos, os museus, os monumentos, os castelos na região próxima a Munique, caminhar por toda essa história, para mim significam, além de um imenso valor intelectual, uma experiência de vida.

- Fale um pouco sobre as diferenças que vc vê em termos de vida cultural entre a Alemanha e o Brasil
Há um pouco de diferença. Os alemães são muito inteligentes e valorizam muito a educação e a cultura. Há vários museus espalhados por  Berlim, desde o museu de história até o grande complexo de três museus de antiguidade, com estruturas gigantescas originais de templos gregos, réplicas, arte egípcia, tudo muito perto, acessível.  Os turistas podem comprar tickets que são válidos para todos os museus, e os estudantes compram tickets anuais, para acompanharem todas as exposições novas que chegam. O transporte coletivo funciona!!! Não há cobrador nos ônibus ou catracas no metrô, e as pessoas compram honestamente os seus bilhetes , creio que isso não funcionaria no Brasil, não porque eu tenha uma visão preconceituosa sobre o nosso povo, mas nós temos uma cultura cujo lema é “eu vou me dar bem, o resto não importa”, então, não pagam. Os alemães não pensam assim, eles sabem que se não comprarem o bilhete, não haverá transporte, porque eles precisam de manutenção, então pagam! E tudo o que se diz sobre serem certinhos, pontuais, é verdade: pedestres atravessam na faixa, não ouvi buzina alguma no trânsito, compromissos são com hora marcada, tudo muito bem explicado. Marquei um encontro com um amigo para tomarmos uma cerveja, ele me encontraria no ponto onde passava um bonde, quando ele me passou o endereço, descreveu mais ou menos assim: “rua tal, parada blá blá, bonde blá blá, sentido rua blá blá blá”, sendo que ele poderia simplesmente me dizer “fique do lado direito da calçada da rua tal, no ponto do bonde”  (risos). Mas eles são adoráveis, não vi frieza nem sofri preconceito, como já ouvi muitos comentários.

-E a música? O quê vc gosta de ouvir?
Eu gosto de rock’n roll!!! Eu acho que sou um paradoxo: eu acordo e ouço Metallica pela manhã, e a tarde volto pra casa ouvindo Adriana Calcanhoto! Mas em geral eu ouço rock.

- Você pretende seguir uma carreira literária?
Acho que sim. Digo que “acho” porque sou muito de inspiração. Às vezes simplesmente não consigo escrever, acho que pelo cansaço do trabalho. Então imagino como seria difícil escrever por obrigação. Creio que eu ainda esteja na fase de descobertas, comecei com poesia, já escrevi alguns contos, prosa poética, um dia me arrisco no romance, e vamos ver no que dá...

- Quais seus autores preferidos?
Em primeiríssimo lugar, Clarice Lispector. Depois creio que Dostoiévski e Kafka, foram os três que me chocaram. Como disse Ferreira Gullar em uma entrevista ao site de “O Globo”, dia desses, “literatura tem que mudar a vida”, acho que esses mudaram a minha, eles me chocaram, me fizeram pensar e ver coisas como nunca as tinha visto antes. Os atuais, ainda estou procurando, por enquanto, o meu preferido é o português Miguel Gullander, que escreve uma literatura de conteúdo mais espiritualizado, místico.

-Você lê filosofia? Caso afirmativo, para vc quem foi um dos maiores filósofos do século XX?
Adoro filosofia. Aliás, a filosofia alemã foi um dos motivos pelo qual escolhi estudar esta língua. Considero-me hegeliana, e tenho dois filósofos para o século XX, da mesma corrente filosófica, o existencialismo: Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger. Pretendo estudar mais filosofia futuramente, inclusive a francesa, que é de grande tradição e importância.

-Cinema. E seus filmes preferidos?
Meus filmes preferidos são de gângsters, suspenses, e romances. Os que me lembro agora são Os intocáveis, Brilho eterno de uma mente sem lembranças, “O fabuloso destino de Amelie Poulain, “ “O leitor”,” O sorriso de Mona Lisa”, “Closer”... 

- Para finalizar, um poema inesquecível...
No meu primeiro ano de faculdade, uma professora de linguística recitou, de memória, um poema da Cecília Meireles de uma forma que me encantou tanto, que fiquei obcecada em descobrir qual o poema, sem saber o nome, lembrava somente de um trecho. Fui à biblioteca e procurei na obra completa da Cecília, página por página, até encontrar. Esse poema é inesquecível para mim:


Canção

Pus o meu sonho num navio
e o navio dentro do mar;
- depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe.
A noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei o quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

Conheçam mais dessa Poeta tão querida nesse link:

http://liberdadeperfeita.blogspot.com/

Priscila, sinto muito orgulho de ser sua amiga

Beijos,

Karla Julia

 

Canção: "Georgia On My Mind", Eric Clapton