RUBEM BRAGA


Nasceu em Cachoeiro do Itapemerim ( Espírito Santo), em 1913.
Notável cronista. Imprime em suas crônicas um sentimento poético
que lhes dá singular encanto. O texto abaixo é um trecho de uma crônica
extraída do livro “Ai de ti, Copacabana”, Crônicas, Ed. do Autor, Rio, 1960, pág.10-11.

“O Inventário”

A lista é terrivelmente minuciosa; eu terei  que apresentar, ao sair desta casa, tantos ganchos de pendurar roupa e tantos cinzeirinhos de cobre; que já que insisti pelo piano, tenho que me conformar com a presença de um enorme e sinistro meuble musiqueiro, onde se guardam velhos tangos e valsas.
Meu amigo confere as coisas, de lista na mão e a velha vai repetindo os nomes e apontando os objetos, numa ladainha interminável; bocejo no meio de meu reino desordenado e precário; uma a uma terei de entregar um dia todas essas coisas de volta a esses velhos; e para eles são coisas de certo modo sagradas, como o longo contato de seus olhos e de suas mãos, coisas de suas vidas que incorporaram minutos e anos, lembranças, palavras, emoções. Bocejo, depois fumo: nego-me a examinar, como eles gostariam, o detalhe de cada coisa, a minha indeferença parece que vagamente os ofende. Creio que sentem no fundo da alma um odeio deste estranho que vai morar em sua casa, com suas coisas; sou um intruso, o mais antipático dos intrusos, o intruso que paga o direito de ser intruso. E então eles ficam mais minuciosos, gastam meia hora para acrescentar na lista algumas coisinhas sem importância que tinham omitido, são avaros do que me alugam...
Partem. Chego à janela, vejo os que fecham com todo o cuidado o portão, e sorrio.Esses velhos são uns insensatos. Arrolaram centenas de cacarecos inúteis e se esqueceram do mais importante, do que me atraiu a esta casa, dos bens sem preço, que um vândalo poderia destruir, e entretanto, não estão no inventário, daqueles bens, que se sumissem, fariam esses dois velhos desfalecer de espanto e de dor; o  que eles não compraram com dinheiro, com o longo amor, o longo, cotidiano carinho:as árvores altas, belas, ainda úmidas de chuva da noite, brilhando muito verdes, ao sol.

Rubem Braga

Nota-Na parte de civilização francesa, farei a versão dessa crônica para o francês
Karla Julia

 

"Sempre tenho confiança de que não serei
maltratado na porta do céu, e mesmo que
São Pedro tenha ordem
para não me deixar entrar, ele ficará indeciso
quando eu lhe disser em voz baixa:
"Eu sou lá de Cachoeiro..."

Rubem Braga

Visite a casa do autor em : http://www.overmundo.com.br/guia/casa-dos-braga

Bibliografia:

Crônicas:

- O Conde e o Passarinho, 1936 
- O Morro do Isolamento, 1944
- Com a FEB na Itália, 1945
- Um Pé de Milho, 1948
- O Homem Rouco, 1949
- 50 Crônicas Escolhidas, 1951
- Três Primitivos, 1954
- A Borboleta Amarela, 1955
- A Cidade e a Roça, 1957
- 100 Crônicas Escolhidas, 1958
- Ai de ti, Copacabana, 1960
- O Conde e o Passarinho e O Morro do Isolamento, 1961
- Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália, 1964
- A Cidade e a Roça e Três Primitivos, 1964
- A Traição das Elegantes, 1967
- As Boas Coisas da Vida, 1988
- O Verão e as Mulheres, 1990
- 200 Crônicas Escolhidas
- Casa dos Braga: Memória de Infância (destinado ao público juvenil)
- 1939 - Um episódio em Porto Alegre (Uma fada no front), 2002
- Histórias do Homem Rouco
- Os melhores contos de Rubem Braga (seleção Davi Arrigucci)
- O Menino e o Tuim
- Recado de Primavera
- Um Cartão de Paris
- Pequena Antologia do Braga

Romances:

Casa do Braga

Adaptações:

- O Livro de Ouro dos Contos Russos

- Os Melhores Poemas de Casimiro de Abreu (Seleção e Prefácio)

- Coleção Reencontro Audiolivro - Cirano de Bergerac - Edmond Rostand

- Coleção Reencontro: As Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarascon Alphonse Daudet

- Coleção Reencontro: Os Lusíadas - Luis de Camões (com Edson Braga)

Tradução:

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens.

 

 

Rubem Braga é considerado por muitos o melhor cronista brasileiro, desde Machado de Assis.

by Karla Julia