AMOR ALÉM




Hoje eu quis te amar de um modo diferente;
Diferente de como sempre te amei.
Quis te amar modestamente. Despojado de todas minhas coisas.
Despojado de meus versos despudorados,
De minhas rimas enlouquecidas.

Hoje eu quis te amar
Simplesmente, como pombas,
No mais singelo dos vôos;
Intemporalmente, como pedras polidas
Que a água frágil acariciou por milênios.

Quis um amor desses que a história grava
Nas memórias mais amnésicas e distraídas
Com fios d’ouro indeléveis,
Com despercebidas entregas,
Com pungentes sentimentos...

Hoje eu quis te amar de um modo diferente.
Sem os dentes com os quais sempre lhe mordi a presença,
Sem flores insossas com as quais sempre enfeitei a entrada de seu corpo,
Sem o céu cheio das estrelas falsas que nele acendi para te iluminar,
Sem perfumes insontes
Na nossa pele, nos nossos poros, nas nossas veias, no nosso juízo;
Sem seios divididos ao meio pelo mar morto,
Sem véus impávidos escondendo a paúra.
Sem palavras bonitas, sem palavras difíceis. Sem palavras.
Sem espelhos convexos que invertem as imagens magras de nossos desejos.
Sem olhares, sem segredos, sem vestidos vermelhos, sem projetos.
Sem passado, sem princípio. Sem presente, sem instantes. Sem futuro, sem eternidade.

Apenas quis hoje te amar de um modo diferente.
Modestamente, quis te amar.

E tu vieste envolta em uma luz tão incandescente,
Tão cheia de coisas que em ti guardaste pra mim a vida inteira,
Que mais do que te amar diferente e perdidamente
Morri por ti. Morri repleto de ti. Morri somente.

© Oswaldo Antonio Begiato. Todos os direitos reservados

Canção: "She" Charles Aznavour