MORTE DO ÚLTIMO ESCRITOR

Trecho do livro "Le Livre à Venir", de Maurice Blanchot

Pode-se pensar no último dos escritores, com o qual desapareceria, sem que ninguém soubesse, o pequeno mistério da escrita. Para dar um tom fantástico à situação, pode-se imaginar que esse Rimbaud, ainda mais mítico do que o verdadeiro, ouve calar-se nele, essa palavra que morre com ele. Pode-se enfim supor que seria, de um certo modo, percebido no mundo e no círculo das civilizações, esse fim sem remédio.O que resultaria disso? Aparentemente um grande silêncio. É o que se diz educadamente quando um grande escritor morre: uma voz se calou, um pensamento se dissipou. Que silêncio então, se ninguém mais falasse dessa maneira eminente que é a palavra das obras acompanhadas do rumor de sua reputação.

Pensemos nisso. Tais épocas existiram, existirão, tais ficções foram realidade em certos momentos na vida de cada um de nós. Para surpresa do senso comum, no dia em que essa luz se apagar, não será mais pelo silêncio, mas pelo recuo do silêncio, por uma fenda, de espessura silenciosa, e através dessa fenda, a aproximação de um ruído novo, que será anunciada a era sem palavras. Nada de grave, nada de ruidoso: apenas um murmúrio, e que não acrescentará em nada ao grande tumulto das cidades, do qual pensamos sofrer.Sua única característica : ele é incessante. Uma vez ouvido, ele não pode deixar de sê-lo, e como nunca o ouvimos verdadeiramente, como ele escapa ao entendimento, ele escapa também à qualquer distração, ainda mais presente quando se desvia dele: o ressoar antecipado, daquilo que não foi dito e não o será jamais.

 Maurice Banchot                                         

 

Tradução: Karla Julia
By Karla


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